terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Sobre a solidão de ser do mar

Não sei teu sorriso, nem teu pé esquerdo, mas sei tua alma. Clara como o mar em dias de segunda-feira, depois que todos o deixam. Ele é teu pai, tua mãe e teu irmão. Tu é fruto de um mar sem nome, só com cor. As ondas que te trouxeram até aqui essa hora carimbam que tu pertence ao oceano. Só se atreve a colocar o pé na areia mergulhada depois das três quem é da água.
O barco em que tu se guarda não é teu, mas as cristas não sabem disso e levam tu e teu suposto barco para onde queres. E só não os derrubam porque o vento parece proteger do que ninguém mais sabe o que é. Eu diria ser do próprio, mas estaria me equivocando.
Tua solidão reflete no azul-meio-verde e nas palavras curtas ditas para a areia que ser algum que pouco observa lembra que existe, mas quem lembra, absorve. Teu destino é ter o pé preso pela correnteza e a âncora junto aos ombros, o porto não te vê há tanto tempo. Tu naufragou outros barcos antes desse, marujo. E não diria 'não' para mais uma partida.
As lágrimas dos teus amores te deram tua imensidão. A tua liberdade disfarçada de dor é teu mastro e vela. É quem te leva para os horizontes mais distantes e nunca te traz de volta.
E tudo que tu tem é azul por conta do céu, they say.
A tua tristeza é teu leme e não te faz sair do lugar, se isso é certo.
Teu olhar cruza com o meu por dois segundos e o mundo distraído não percebe.
Você sabe de mim também. Eu sinto. Você sente.
Sentimos o mar.
Ele nos reza.

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