domingo, 27 de novembro de 2011

Ruas cinzas, presença e a ponte branca

   Olha, acordei com o dia preso na alma, com a noite aos meus pés, com uma poesia escrita no braço e um gosto de que algo não conheço na boca. Levantei com uma sensação de que virei amadora nessa história, nessa inexatidão de viver, nessa ilusão de uma calma desconhecida. Guardei o sabor da dor no bolso e andei. Andei pelas ruas cinzas de lembranças, sorri para alguns estranhos, escutei música no último volume, quase fui umas atropelada umas três vezes e pedi desculpa aos motoristas. Fiz umas curvas abertas nas esquinas tortas da cidade, andei sem rumo, e juro que isso não é nada bonito quando se quer casa. Escuta, eu parei na ponte que um dia a gente discutiu sobre a vida. Sentei onde a gente sentou, ocupei os dois lugares: o teu com as memórias e os meu com a presença. Sei que você pôde me ver daí, sei que você pôde ver e ouvir minhas risadas. E ver minhas lágrimas... Olha, me perdoa. Eu não queria te doesse, mas eu lembrei. Lembrei do dia perdido - ou ganho - falando sobre algo que a gente não conhecia, lembrei das palavras tuas que ainda ecoam em minha mente:
— Já pensou em quantas pessoas já pensaram em acabar com tudo aqui? - falastes olhando para frente, com voz de quem não espera resposta.
— Agora sim, mas não consigo imaginar acabar com tudo com um ato. Me parece vago. Não sei - disse mexendo em meu próprio cabelo e balançando o pé.
— É porque você tem mania de ver o mundo com olhos de criança. - dissestes, finalmente olhando em meus olhos.
— Talvez seja verdade. - disse, sorrindo um sorriso de canto de boca - Mas escuta, e percebe se não é verdade... Só ter o que dá pra tocar, não é pouco? Assim, eu quero viver mais do que isso, sabe? Eu quero algo que eu não possa tocar, mas possa sentir. Eu não quero viver algo muito palpável, quero viver uma coisinha que escorra por mim...
— Já disse que você tem um modo lindo de ver as coisas, não é? - falastes com uma voz de menino. - Eu entendo, menina, é tão pouco só viver a vida.
— Também é bom viver a morte.
   Olha, eu juro que escrevo com água nos olhos, mas a dor passa longe dos mesmos. Olha, eu juro que ainda te guardo - e aguardo - na ponte. Olha, eu juro que eu desocupo o espaço que invadi, só pra você voltar. Mas se não quiser, não volta, não. Fica, mas promete que me olha? Que me guarda? Olha, eu não quero que te doa, nem que me doa, mas eu quero que lembre, relembre e trelembre que a ponte é branca e que as histórias são negras, a gente não precisa fazer esforço pra ver: está tudo em nossa frente, só basta estarmos de olhos abertos. Vê a ponte ou vê as histórias? Olha, ambas mudaram. A gente se tornou negro, e é mais um traço da ponte.
   Pensa... Quantas pessoas começaram tudo aqui? Pensa... Quantas pessoas recomeçaram aqui? Pensa, mas que não doa. E que não pule; que brinque pela ponte, que faça dela teu abrigo e que quando quiser vir, vem. Tuas presenças que aparecem de vez em quando, me agradam.

(Eloísa Gonçalves)

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