domingo, 13 de novembro de 2011

Muito além do teatro

Deixo aqui claro o meu desgosto por pontos turísticos.
   Provavelmente, porque detesto coisas que chamem atenção demais, ou simplesmente por eles tirarem todo o foco do que realmente deveria ser visto, ou talvez eu não saiba apreciá-los do jeito merecido, ou ainda apenas por não agüentar olhar tempo demais para algo que não serve para nada, além de enfeitar.
   Tenho mais opções do porquê e mesmo que você não me empreste o ouvido, eu vou te contar.
   Estava caminhando pela cidade com mais quatro pessoas, se não me falha a memória. Coisa que não acho difícil. Já que te contei em outro desses bilhetes, que acabam virando uma coisa que nem sei o nome, que minha memória é terrível. Mas isso daqui não é sobre mim, pelo menos não por ora.
    Éramos cincos pessoas, como já disse. Duas crianças (ou três, se você contar comigo) e mais duas adultas (ou três, se você contar comigo). Crianças de perninhas curtas, cabelos lisos e rostos redondos. A inocência em corpo,devo dizer. As mãos curtas estavam entrelaçadas nas mãos de uma das adultas. A mais nova entre elas, devo dizer. A que guiava as crianças e saia apontando com o rosto todos os pontos que considerou importante para elas. Ouvia todos atentamente, inclusive o último:
- E aquele ali é o teatro, meus amores. - disse com uma voz meio suave, calma e irritante. Elas tinham dado uma pequena parada, enquanto eu seguia as quatro meio de longe. Distante necessária para mim, você me conhece.
   As meninas sorriram enquanto eu meio que prendi o choro. Engraçado, não é?
    O teatro era lindo, não posso negar. Prédio clássico, do jeito que eu gosto (ou talvez gostasse, não sei mais). Os postes que ficavam na frente dele estavam com as luzes apagadas, afinal, ainda era cedo, mas viajei até aquele lugar a noite. Esplendido! Porém, posso dizer, que meu choro não foi pela esplendidão do teatro quando o sol se escondia do outro lado do mundo. Com certeza, não.
   A questão é que vi naquele dia, do lado do teatro, um meio morro que parecia com um escorrego. Dependia muito dos olhos de quem o visse. Só que esse seria verde por conta da grama que o cobria.  Ali estavam cinco pessoas. Duas crianças (ou três, se você contar com uma adolescente) e duas adultas. Sentadas, roupas gastas e sujas, papelão na mão. Parei para olhar um pouco para aquele pequeno grupo de pessoas que pareciam não fazer parte daquele lugar, enquanto uma das adultas que me acompanhavam ainda falava sobre o teatro.
   As pessoas que antes estavam sentadas, levantaram um pouco. O suficiente para colocarem o papelão em encontro com a grama e sentarem novamente. 
Sorriram. 
Pude sentir a animação de onde estava e pode ter certeza que estava um tanto quanto distante… No mínino, três metros. Olharam-se entre si, sorriram de novo e fizeram força para descer o morro-escorrego do lado do teatro. Desceram aos risos e gritos. Quando finalmente a 'viagem' acabou, levantaram e subiram o morro correndo. Provavelmente, apostando corrida. Repetiram todo o processo outra vez. 
Sorri.
   As mulheres e as crianças que eu acompanhava se afastaram demais de mim e tive de ir atrás. A mulher mais nova continuou a falar sobre o teatro: em como ele era um grande ponto turístico, em como era privilegiada por morar naquela cidade, em como aquele teatro era lindo, em como poderíamos aprender naquele lugar...
   Em relação ao privilégio e ao aprendizado: concordo. Já não sei sobre o teatro.

(Eloísa Gonçalves)

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