terça-feira, 15 de novembro de 2011

Insônia, poeira e prosa

Dias longos e memórias breves. Presente calmo e avassalador. Uma hora da manhã, desejos de bocejos que se tornam mudos por conta da insônia instalada no corpo pesado e pequeno deitado na cama fria do meu quarto. Madrugada desgastante, enquanto zapeava entres os canais da tevê… Desliguei a tevê com pressa e raiva, joguei o controle na cama, fechei os olhos e abri a boca para puxar o ar frio da noite. Encostei as costas no colchão forrado de ausência, escutei os barulhos baixos da noite e o silêncio da mente… Levantei da cama a procura do sono que faltava ao corpo e a mente. Abri a janela, para olhar o céu que mal tinha estrelas. A lua brilhava praticamente sozinha naquela imensidão negra que o sol havia deixado quando se escondeu do outro lado do mundo. Com a cabeça pesada de idéias, peguei o violão marfim praticamente esquecido no canto do quarto e comecei a dedilhá-lo. E com os acordes montados, o cheiro de poeira sobe. Tossi um pouco e sorri.
- Essa minha alergia ainda vai me matar. – falei para a lua, deixando o violão na cama vazia e desarrumada que eu havia deixado à minha espera.
- Você e essa mania de mexer em coisas antigas, minha menina. – ela me respondeu com o brilho que exalava. Tão linda…
- E você com essa mania de me enlouquecer, me cegar com esse brilho… Não sei por que te quero como companhia.
- Porque você gosta de solidão, minha amada. Você me encontra quando me quer, me olha, me procura, me brinca… Mas se vai quando quer, também. – ela sussurrou ao vento que bateu em meu cabelo e o fez bater em meus olhos.
Fiquei em silêncio. Fechei os olhos e encostei a cabeça na janela. Deixei o vento levar a água que se encontrou em meu rosto. A lua me fez um carinho pelo brilho, fazendo meu rosto ficar mais claro, fazendo a lágrima se esconder no meu rosto.
- Não chores minha menina. Não chores…
- É difícil. – disse meio chorosa, passando os dedos onde futuramente ficariam as marcas das lágrimas.
- Eu sei, pequena. Eu sei… Mas te ver chorar me corta o… – parou a frase no meio.
- O que? O coração?
- Você sabe que não tenho coração.
- Isso te impede de sentir?
- Nunca. Sentir é o que me faz brilhar precisando do sol. – ela respondeu meio risonha, como apaixonada fala do amado.
- Então me entendes. – disse meio fria.
- Não, menina. Não entendo. Pois tu sentes e sentes muito, porém tentas se impedir de o fazer. E isso te dói, criança. Te dói… Posso ver nos dias que te observo ouvindo música baixa, esquecendo do mundo. Vejo, menina, que tu queres o mundo, o sol… Mas me queres também. Queres a minha calma e a imensidão do mar. Mas queres isso apenas por hora. Depois queres o nada. O tudo que o nada traz. Você, menina, é uma incógnita gigante a meu ver.
- Que ninguém quer desvendar.
- Ai está seu problema, pequena. Você se esconde nesse mistério. Você e só você, não deixa que cheguem a ver ao menos a ponta da tua solução. Você quer ser problema. Você quer ser essa confusão que és.
- Ninguém respeita isso, minha amada. Todos querem ser solução. Quero algo que me deixe ser problema. Que me deixe ser! Ninguém vem aqui, me dá um beijo e vai embora sem se machucar, pois não respeitam meus limites. Querem invadir tudo! Eu tenho meu espaço, sabe? Eu quero meu espaço! Imponho isso! Deve machucar. Não sei…
- Machuca e te digo com propriedade. Me dói quando você não me visita, me dói quando você me afasta. Me dói quando você se isola. Me dói te ver sozinha com os olhos avermelhados de falta de sono, como hoje. Mas hoje, quando te vi na janela, sabia que viria falar comigo. Senti.
- Vim porque precisei e vou porque também preciso. Ausências fazem bem quando em medidas certas, meu bem. Você sabe bem. Você vai embora, também. O sol vem e te oculta. Você muda e oculta alguns pedaços. Você é imensa, grande! Mas ninguém te toca como deveria, quando poderia! E quem diz que já lhe tocou, minha cara, mente! Pois és rala, assim como te sinto.
- Você se vê em mim, não é? – ela disse em um tom meio tristonho.
- Me vejo em tudo e em nada. Você se inclui nisso, você e esse teu brilho que não me machucam. Vim aqui porque sei que entendes minha alergia a coisas antigas e minha atração pelas mesmas. Você entende. Eu sei.
- Entendo porque te sou. E não entendo também por isso.
- Me és?
- Sim.
- Então sabes que irei embora agora.
- Sei. E sei que voltas um dia.
- Talvez.
- Não tente se enganar.
- Eu tento, mas não consigo.
- Sei disso e agradeço por tal.
- Não deveria.
- Por quê?
- Não sei. Talvez se eu conseguisse enganar a ti e a mim ficaria mais tempo. Vou embora mais fácil quando começam a ver minha ponta de solução. Mudo, refaço! Você sabe…
- Não peço tempo, minha criança. Peço o que podes me dar.
- Você não terá muito.
- Nem você.
- Nunca tive.
- Me tem.
- Não conjugo verbo ter. Você sabe.
- Sei. Voltas quando?
- Quando precisar.
- Só quando?
- Não sei.
- Te vejo.
- Te procuro.
Fechei a janela. Tirei o violão da cama, encostei-o na parede que não havia nada com cuidado e deitei na cama. Olhei o teto com atenção, ainda via o brilho da lua em meus olhos. Fechei-os, passei a mão direita em meus cabelos e deixei a esquerda em cima de minha barriga. Meu corpo foi amolecendo, fui tomando inconsciência do mundo e adormeci… Ao acordar ao meio-dia do outro dia, lembrei de meu sonho, como poucas vezes ocorreram. Lembrei de ter sonhado com um rosto qualquer, mas que tive a impressão de já conhecer. Branco, redondo , de olhos grandes e azuis. 
Sorri na mesma hora. 
Me vi naqueles olhos. 
Os reconheceria em qualquer lugar.

(Eloísa Gonçalves)

Um comentário:

Anônimo disse...

Agora descobri por que não vejo a lua mais na minha janela... ela preferiu você a mim.
Bobagem, ela ainda está lá, e eu no quarto, escurecido pela cortina, enfrentando os meus demônios. - Antes eu não me sentia tão sozinho.