sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Luísa: águas e manias

O arrastar dos pneus anunciava a partida, a presença da fumaça dizia que mais uma tarde longe naquela casa pequena que Luísa habitava. Não vivia, pois viver é um verbo um pouco forte, posse dizer.
Esquentou a água, sentou na cadeira e pegou o café. A xícara estava pronta, posta e a sanidade estava no vapor que subia do quente que estava em suas mãos. Não reclamava, nem largava, nem sentia. Luísa tinha lá suas manias e sabia.

Foi embora a gota de lucidez que ainda restava no short curto com sua companhia preferida: o sutiã preto e justo ao corpo que vestia. A dança que levava o corpo de Luísa virou, feito brisa, a tarde ao avesso e a transformou em noite que traz mais tempestade e remexe ainda mais as árvores poucas daquele lugar e junto com elas, o orvalho da chuva do outro dia.

E o orvalho de um dia futuro, chegou naquele. Águas se chamam e gotas se unem. O céu chorava e Luísa ardia em água. A falta do brilho estava em seus olhos, a estrela que havia perdido, o matar que havia plantado no céu, na terra, no habitat e na noite. Talvez o fogo da febre cegasse Luísa e em fogo qualquer um é um perigo. Nem remédio, nem vento, nem água baixa a temperatura. Nem tempo que tanto dizem ser o senhor e curador das ruínas servia de refúgio e fuga para Luísa.

Afundou nas paredes, viu o quadro negro que nunca esteve mais branco. Rabiscos de e para o nada. A vida rala escorria pelas mãos de Luísa, a cada dia e a cada noite. Até o adeus que busca rair e não ser mais a prisão que teme. Luísa me confessou isso em seu diário deixado embaixo da mesa. Deixou de propósito. Luísa tinha lá suas manias e sabia.

(Eloísa Gonçalves)

Nenhum comentário: